Estive pensando esses dias: devia ter uma lei proibindo as pessoas de dizer "tudo vai ficar bem". Ou pelo menos deveriam exigir habilitação de quem quiser que disesse isso. Talvez eu pense assim porque sou um pessimista convicto. A coisa mais frustrante pra mim é ver uma TSUNAMI se aproximando e um bunda-mole ao meu lado, sentado em sua cadeirinha de praia, tomando agüinha de côco, dizendo: "tudo vai ficar bem, se não estã bem, é porque não chegou ao fim ainda!".
Me dá vontade de adiantar o fim do retardado. Parece que essa raça - essa sub-classe de humano - ainda não percebeu que as coisas não se ajeitam sozinhas. No fim, as coisas só ficam bem quando alguém trabalhou para que isso acontecesse. As coisas não são tão simples como na química inorgânica, quando tu mistura ácido e base, espera um tempo e depois de alguma borbulhada, tudo vira sal e água, e a harmonia volta a reinar. A partir do momento que o indivíduo está dando o sangue para arrumar a situação, ele tem todo o direito de falar que tudo vai ficar bem.
Exemplo prático:
Tsunami vindo.
A) O bunda-mole sentadinho diz que tudo vai ficar bem. FAIL.
B) O sujeito está quase morrendo de tantas felpas de madeira tem fincadas no corpo enquanto tenta a todo custo improvisar uma barragem usando pauzinhos de guarda-sol. RESPECT.
Esse merece dizer que tudo vai ficar bem, ainda que não fique. Afinal, o cara tentou.
Eu sempre estive na posição do cara que fala que vai ficar bem mas faz algo a respeito. Daí chega uma situação na vida em que se percebe que dadas as dimensões do problema, não há o que fazer. Perdi uma amiga. Tenho a certeza de que nada do que eu disser pra qualquer pessoa que está passando pelo mesmo que eu (ou pior) não vai fazê-la se sentir melhor. Sei disso porque sei que nada do que ME disserem vai adiantar. Queria ter o poder de segurar alguns dos meus amigos e dizer: passa essa tristeza pra mim. É barra, mas prefiro eu segurar que ver eles dessa maneira.
Talvez seja minha inabilidade de lidar com isso, mas não consigo trabalhar na solução pra isso, não dessa vez. Que o mundo me desculpe por me conformar em ser o bunda-mole dessa vez, mas estou fazendo meu melhor. Força...
05 fevereiro 2008
06 janeiro 2008
Reveiller
- Bem na hora! O leitão acabou de ficar pronto! - abri a porta recebendo Anita que vinha comemorar a virada do ano conosco.
Anita largou seus pertences em um canto, como já estava acostumada, e logo se acomodou na sala, onde comíamos com os pratos no colo, bebendo, ouvindo música e conversando.
- Ah, sim! Anita, esse é o Ricardo, um amigo meu de longa data... - apresentei-o.
- Oi Ricardo!
Ricardo fez questão de levantar-se e cumprimentar Anita calorosamente quando ela chegou. Desta vez, de boca cheia, ele acenou com a cabeça enquanto erguia seu copo em um gesto de brinde.
- Ricardo é mudo, Anita. Desde que o conheci.
- Nossa, mas o que houve? Acidente, voto de silêncio ou algo parecido?
- Olha... Ele não fala muito sobre isso!
Risos. Ricardo riu, inclusive, embora eu também não soubesse a razão dele não falar.
- Vocês se conhecem há quanto tempo? - perguntou Anita enquanto se recuperava da piadinha.
- Não muito, faz uns 2, 3 anos. Ele luta, foi meu professor de aikido.
- Que legal! Mas me explica uma coisa, fiquei curiosa. Como que vocês são amigos assim sem trocar uma palavra? Ele só escuta o que tu tens pra dizer, isso nunca incomodou vocês?
Eu e Ricardo nos olhamos. Ele levantou sinalizando que ia até o banheiro.
- Não... Não sei explicar, na verdade. Com certeza ele me escuta bastante. A gente simplesmente se entende, o Ricardo não precisa falar pra mim saber o que aflige ele. Claro que é difícil, no início eu estranhei muito, mas daí tu conhece ele e vê que ele é um cara gente fina. Às vezes eu até ajudo ele a se expressar, quando ele precisa MESMO falar.
- E ele trabalha com o que? - questionou Anita ainda intrigada pela figura.
- Informática. Daí isso nunca foi problema, se comunica tudo por email mesmo.
Ricardo voltou do banheiro.
- Puxa, admiro a força dele. Conta aí, o que tu já teve que falar por ele?
- Ah, de tudo um pouco. Já liguei pra mãe dele no dia das mães, expliquei pra um cara de uma loja hippie que o gesto que ele estava fazendo significava "me dá dois desses" e não "paz e amor", uma vez até me declarei por ele para uma menina. Ficaram juntos por 1 ano.
- Óó, que bonitinho.
Ricardo olhou para mim fixamente, como se acabasse de ter percebido algo. Não sabia dizer se ele tinha esquecido ou lembrado de algo. Na dúvida, aproveitei pra contar as novidades para Anita.
- O Ricardo tá tocando conosco na banda. - contei para Anita.
- Sério? E o que ele toca?
- Teclado e vocais.
Ricardo ria denovo. Depois, fez gestos tão nítidos que eu podia ouvir ele dizendo "não, só toco teclado mesmo!". Anita terminou seu prato de leitão e já estava se levantando, preparada para repetir.
- Bah Ricardo, mas com teu amigo cozinhando deste jeito, vai ficar todo mundo quietinho por aqui! Vou lá pegar um pouco mais.
Alguns pratos, copos, cigarros e minutos depois, virou o ano. Vimos os fogos, conversamos mais um pouco e Anita foi embora. Pouco tempo depois, Ricardo decidiu ir também. Eu já abria a porta quando senti alguém cutucar meu ombro.
- Que foi, Ricardo?
- Obrigado. - respondeu. Respondeu, e então foi a minha vez de perceber que eu não precisava dizer mais nada naquele momento. E me calei.
Obrigado Ricardos e Anitas.
Anita largou seus pertences em um canto, como já estava acostumada, e logo se acomodou na sala, onde comíamos com os pratos no colo, bebendo, ouvindo música e conversando.
- Ah, sim! Anita, esse é o Ricardo, um amigo meu de longa data... - apresentei-o.
- Oi Ricardo!
Ricardo fez questão de levantar-se e cumprimentar Anita calorosamente quando ela chegou. Desta vez, de boca cheia, ele acenou com a cabeça enquanto erguia seu copo em um gesto de brinde.
- Ricardo é mudo, Anita. Desde que o conheci.
- Nossa, mas o que houve? Acidente, voto de silêncio ou algo parecido?
- Olha... Ele não fala muito sobre isso!
Risos. Ricardo riu, inclusive, embora eu também não soubesse a razão dele não falar.
- Vocês se conhecem há quanto tempo? - perguntou Anita enquanto se recuperava da piadinha.
- Não muito, faz uns 2, 3 anos. Ele luta, foi meu professor de aikido.
- Que legal! Mas me explica uma coisa, fiquei curiosa. Como que vocês são amigos assim sem trocar uma palavra? Ele só escuta o que tu tens pra dizer, isso nunca incomodou vocês?
Eu e Ricardo nos olhamos. Ele levantou sinalizando que ia até o banheiro.
- Não... Não sei explicar, na verdade. Com certeza ele me escuta bastante. A gente simplesmente se entende, o Ricardo não precisa falar pra mim saber o que aflige ele. Claro que é difícil, no início eu estranhei muito, mas daí tu conhece ele e vê que ele é um cara gente fina. Às vezes eu até ajudo ele a se expressar, quando ele precisa MESMO falar.
- E ele trabalha com o que? - questionou Anita ainda intrigada pela figura.
- Informática. Daí isso nunca foi problema, se comunica tudo por email mesmo.
Ricardo voltou do banheiro.
- Puxa, admiro a força dele. Conta aí, o que tu já teve que falar por ele?
- Ah, de tudo um pouco. Já liguei pra mãe dele no dia das mães, expliquei pra um cara de uma loja hippie que o gesto que ele estava fazendo significava "me dá dois desses" e não "paz e amor", uma vez até me declarei por ele para uma menina. Ficaram juntos por 1 ano.
- Óó, que bonitinho.
Ricardo olhou para mim fixamente, como se acabasse de ter percebido algo. Não sabia dizer se ele tinha esquecido ou lembrado de algo. Na dúvida, aproveitei pra contar as novidades para Anita.
- O Ricardo tá tocando conosco na banda. - contei para Anita.
- Sério? E o que ele toca?
- Teclado e vocais.
Ricardo ria denovo. Depois, fez gestos tão nítidos que eu podia ouvir ele dizendo "não, só toco teclado mesmo!". Anita terminou seu prato de leitão e já estava se levantando, preparada para repetir.
- Bah Ricardo, mas com teu amigo cozinhando deste jeito, vai ficar todo mundo quietinho por aqui! Vou lá pegar um pouco mais.
Alguns pratos, copos, cigarros e minutos depois, virou o ano. Vimos os fogos, conversamos mais um pouco e Anita foi embora. Pouco tempo depois, Ricardo decidiu ir também. Eu já abria a porta quando senti alguém cutucar meu ombro.
- Que foi, Ricardo?
- Obrigado. - respondeu. Respondeu, e então foi a minha vez de perceber que eu não precisava dizer mais nada naquele momento. E me calei.
Obrigado Ricardos e Anitas.
05 dezembro 2007
Espírito de Natal 3
Bêbados, sentamos à mesa e então surgiu a discussão.
A pior parte da cultura brasileira é a tentativa de lhe agregar valor utilizando-se de folclore de outro país. Acontece que lá, isso funciona. Aqui, são outros 500.
Lá, o natal é no inverno. Já cansamos de ver o quanto eles se divertem na neve em filmes de sessão da tarde. Basta passear no shopping para encontrar aquelas enormes árvores de natal cobertas de neve artificial. Por que diabos? POR QUE DIABOS???
Outra hipótese interessante é de que o brasil é miserável porque não temos lareiras. Pensar bem: o papai noel entra pela chaminé, e ainda deixa presentes extras como chocolates, balinhas e outras porcarias caso preguemos uma meia de lã na moldura. Só pode ser por isso que os presentes estão mais escassos: falta de lareiras. Falando do papai noel, muito inteligente dele usar uma barba gigante, touquinha e roupa estofada. Utilíssimo no calor de 40°C à sombra.
Quem sabe um papai noel mais com a cara do país pudesse atrair mais fãs à história infantil? E se ao invés de um trenó com renas, ele fosse caminhoneiro? Cabelo ruim e raspado, regatinha amarela, bermuda azul, chinelo havaianas e um companheiro chamado Bino. Lhe bastaria um Scania voador para entregar os presentes de todas as criancinhas. Entrando pela chaminé? Que esperança! O nosso papai noel arromba a porta da sua casa, deixa os presentes (e o boleto de R$8,99 a ser pago em qualquer agência do Banco do Brasil, referente à taxa de entrega) e sai numa boa.
Já pensaram a alegria das crianças ao ouvir o barulho de freio de caminhão perto de suas casas?
Co-autoria de:
Andréa Mu
Karin Engel
Pedro Palaoro
Pedro Paiva
Data original: 04/04/07
A pior parte da cultura brasileira é a tentativa de lhe agregar valor utilizando-se de folclore de outro país. Acontece que lá, isso funciona. Aqui, são outros 500.
Lá, o natal é no inverno. Já cansamos de ver o quanto eles se divertem na neve em filmes de sessão da tarde. Basta passear no shopping para encontrar aquelas enormes árvores de natal cobertas de neve artificial. Por que diabos? POR QUE DIABOS???
Outra hipótese interessante é de que o brasil é miserável porque não temos lareiras. Pensar bem: o papai noel entra pela chaminé, e ainda deixa presentes extras como chocolates, balinhas e outras porcarias caso preguemos uma meia de lã na moldura. Só pode ser por isso que os presentes estão mais escassos: falta de lareiras. Falando do papai noel, muito inteligente dele usar uma barba gigante, touquinha e roupa estofada. Utilíssimo no calor de 40°C à sombra.
Quem sabe um papai noel mais com a cara do país pudesse atrair mais fãs à história infantil? E se ao invés de um trenó com renas, ele fosse caminhoneiro? Cabelo ruim e raspado, regatinha amarela, bermuda azul, chinelo havaianas e um companheiro chamado Bino. Lhe bastaria um Scania voador para entregar os presentes de todas as criancinhas. Entrando pela chaminé? Que esperança! O nosso papai noel arromba a porta da sua casa, deixa os presentes (e o boleto de R$8,99 a ser pago em qualquer agência do Banco do Brasil, referente à taxa de entrega) e sai numa boa.
Já pensaram a alegria das crianças ao ouvir o barulho de freio de caminhão perto de suas casas?
Co-autoria de:
Andréa Mu
Karin Engel
Pedro Palaoro
Pedro Paiva
Data original: 04/04/07
25 novembro 2007
Ovelha Negra
Este post é de ordem meramente informativa e não contém conteúdo artístico senão a mera palavra de quem vos escreve.
Fui no show da Rita Lee hoje. Ouvi comentários de pessoas que já tinham ido dizendo que é um dos shows que não se pode morrer sem ir. Disseram que a mulher em questão fazia espetáculos no palco e que ela realmente mostrava seu talento ao vivo.
Sou fã de Rita há algum tempo, sempre escutei e sempre me agradou muito. O show realmente foi espetacular. Ainda prefiro as canções antigas às novas. Essas últimas estão muito longe do espírito rock and roll que as anteriores possuem. Parece até que a letra foi feita na última hora para se encaixar em uma série de pequenos riffs criados especialmente para virarem a melhor música do mundo dos próximos 5 minutos. Em compensação, Rita levou a platéia ao delírio com clássicos como Ovelha Negra e Lança Perfume.
Ao êxtase dentro das possibilidades. A única coisa que me irritou durante a performance da paulistana foi a platéia em si. Todos os cidadãos britânicamente sentadinhos ouvindo o show como quem escuta uma mp3. O máximo do entusiasmo era sacudir a cabeça, e se você batia palmas, nossa, isso era um pecado. Odeio esse cinismo de platéia que quer fingir uma elegância forçada enquanto todos estão morrendo de vontade de sair dançando. Não tenho nojo das dondocas overdressed ou das patricinhas "meu-cabelo-custa-mais-que-seu-relógio". Tenho pena. Porque eu dancei.
No fim das contas, Rita Lee levantou até Stephen Hawking da cadeira quando tocou suas músicas mais pegadas. Ninguém aguentou ficar sentado muito tempo. Rita wins. Rock and Roll still rocks.
Obrigado a todos por terem a paciência de ler o que acaba de ser meu primeiro post "press-like" neste blog. Sintam-se livres para comentar, opinar, criticar ou mandar o Glauber à merda. PNC.
Fui no show da Rita Lee hoje. Ouvi comentários de pessoas que já tinham ido dizendo que é um dos shows que não se pode morrer sem ir. Disseram que a mulher em questão fazia espetáculos no palco e que ela realmente mostrava seu talento ao vivo.Sou fã de Rita há algum tempo, sempre escutei e sempre me agradou muito. O show realmente foi espetacular. Ainda prefiro as canções antigas às novas. Essas últimas estão muito longe do espírito rock and roll que as anteriores possuem. Parece até que a letra foi feita na última hora para se encaixar em uma série de pequenos riffs criados especialmente para virarem a melhor música do mundo dos próximos 5 minutos. Em compensação, Rita levou a platéia ao delírio com clássicos como Ovelha Negra e Lança Perfume.
Ao êxtase dentro das possibilidades. A única coisa que me irritou durante a performance da paulistana foi a platéia em si. Todos os cidadãos britânicamente sentadinhos ouvindo o show como quem escuta uma mp3. O máximo do entusiasmo era sacudir a cabeça, e se você batia palmas, nossa, isso era um pecado. Odeio esse cinismo de platéia que quer fingir uma elegância forçada enquanto todos estão morrendo de vontade de sair dançando. Não tenho nojo das dondocas overdressed ou das patricinhas "meu-cabelo-custa-mais-que-seu-relógio". Tenho pena. Porque eu dancei.
No fim das contas, Rita Lee levantou até Stephen Hawking da cadeira quando tocou suas músicas mais pegadas. Ninguém aguentou ficar sentado muito tempo. Rita wins. Rock and Roll still rocks.Obrigado a todos por terem a paciência de ler o que acaba de ser meu primeiro post "press-like" neste blog. Sintam-se livres para comentar, opinar, criticar ou mandar o Glauber à merda. PNC.
31 outubro 2007
Não é o que você está pensando
Aqueles filmes são ridículos. Um velho debilitado pelo tempo ou pelas pernas fracas - o que vier primeiro - fica isolado em uma casa os dias inteiros. Sem ter o que fazer, fica observando os vizinhos e acha que todos estão tramando algo de suspeito. Acha que o bobó de camarão que o neto lhe deu de presente estava envenenado e é tudo um plano para obter o legado da família mais cedo que o tempo iria permitir. Ridículos. Nunca vão entender o que é paranóia.
Sou psiquiatra, tenho 38 anos e durante toda a minha vida dependi da observação de detalhes para extrair informações importantes. E no consultório, isso sempre deu certo.
Agora, imagine que um dia, você acorda, olha pro lado e percebe que o travesseiro da sua esposa não está sobre a cama. Em uma fração de segundo, você simplesmente para e mata 3/4 dos seus neurônios úteis tamanho o nervosismo.
Na noite anterior, tínhamos ido a uma festa de gala. Era o lançamento de um livro da esposa do meu melhor amigo. Era filósofa. Eu tinha abusado um pouco demais do coquetel e tinha dito para minha esposa que voltaria para o hotel. Ela, empolgada com a situação, disse que ficaria um pouco a mais, conversando com meu amigo, e depois voltaria.
Bem que achei estranho demais o interesse dela nessa viagem. Ela mal conhecia a esposa do meu amigo. E afinal de contas, por que cargas d'água ela iria querer me acompanhar em uma viagem chata para Três Figueiras? Não tinha nada de interessante lá, passamos as vidas lá e já conhecíamos cada canto da cidade. Todos com quem mantinhamos contato não moram mais lá! Comecei a entender...
Antes de viajarmos, ela me disse que tinha adicionado Carlos no messenger. Achei muito estranho, pois não fui eu que passei a ela o contato dele. E por que diabos ela estaria procurando meu amigo? Bem que eu vi que ela estava demonstrando muita empolgação com aquelas conversas... Bem antes de viajarmos, há precisamente 10 anos, na realidade, casamos brigados com Carlos. Nos dois éramos apaixonados por Sônia, minha atual esposa. Eles continuaram se dando bem, mas nós não nos falamos direito até hoje.
Levantei da cama, mais eriçado que meus cabelos. Liguei para a recepção. Minha esposa não havia deixado recados. Liguei para o celular dela. Chamava, chamava, e não atendia. Uma, duas, quinze vezes. Que tipo de adúltera sai com o melhor amigo alheio e nem sequer dá um sinal de vida? Afinal, quem eles queriam enganar por aqui? Coloquei a primeira roupa que encontrei no armário e saí do hotel.
Abrindo o armário, percebi que na noite anterior ela havia pego seu melhor vestido para a ocasião. Era um vestido vermelho, decotado, que eu mesmo dera pra ela no nosso aniversário de 5 anos de casamento. Como eu não havia percebido isso antes? Bem debaixo do meu nariz. Eu nunca devia ter saído daquele coquetel. Por mais bêbado que estivesse, era melhor eu ter vomitado em pleno salão do que ter deixado a minha esposa com aquele pária.
Cheguei no apartamento dele. Quando eu acabei de bater na campainha dele, meu celular toca. É a atenciosíssima recepcionista do hotel. Me avisou que minha mulher tinha acabado de chegar. Meu amigo não atendia a campainha. Será que ele tinha deixado ela no hotel? Esqueci de perguntar isso para a recepcionista no telefone. Detesto quando eu penso nas coisas tarde demais.
Apressado, entrei no hotel ignorando todos os "bom dia"s dos porteiros, a fila de carros importados que obstruía meu caminho e subi imediatamente ao meu quarto. Para minha surpresa, em cima da mesa, havia uma caixinha de presente e uma carta. A carta dizia:
Segundos depois, a camareira abre a porta e diz:
Sou psiquiatra, tenho 38 anos e durante toda a minha vida dependi da observação de detalhes para extrair informações importantes. E no consultório, isso sempre deu certo.
Agora, imagine que um dia, você acorda, olha pro lado e percebe que o travesseiro da sua esposa não está sobre a cama. Em uma fração de segundo, você simplesmente para e mata 3/4 dos seus neurônios úteis tamanho o nervosismo.
Na noite anterior, tínhamos ido a uma festa de gala. Era o lançamento de um livro da esposa do meu melhor amigo. Era filósofa. Eu tinha abusado um pouco demais do coquetel e tinha dito para minha esposa que voltaria para o hotel. Ela, empolgada com a situação, disse que ficaria um pouco a mais, conversando com meu amigo, e depois voltaria.
Bem que achei estranho demais o interesse dela nessa viagem. Ela mal conhecia a esposa do meu amigo. E afinal de contas, por que cargas d'água ela iria querer me acompanhar em uma viagem chata para Três Figueiras? Não tinha nada de interessante lá, passamos as vidas lá e já conhecíamos cada canto da cidade. Todos com quem mantinhamos contato não moram mais lá! Comecei a entender...
Antes de viajarmos, ela me disse que tinha adicionado Carlos no messenger. Achei muito estranho, pois não fui eu que passei a ela o contato dele. E por que diabos ela estaria procurando meu amigo? Bem que eu vi que ela estava demonstrando muita empolgação com aquelas conversas... Bem antes de viajarmos, há precisamente 10 anos, na realidade, casamos brigados com Carlos. Nos dois éramos apaixonados por Sônia, minha atual esposa. Eles continuaram se dando bem, mas nós não nos falamos direito até hoje.
Levantei da cama, mais eriçado que meus cabelos. Liguei para a recepção. Minha esposa não havia deixado recados. Liguei para o celular dela. Chamava, chamava, e não atendia. Uma, duas, quinze vezes. Que tipo de adúltera sai com o melhor amigo alheio e nem sequer dá um sinal de vida? Afinal, quem eles queriam enganar por aqui? Coloquei a primeira roupa que encontrei no armário e saí do hotel.
Abrindo o armário, percebi que na noite anterior ela havia pego seu melhor vestido para a ocasião. Era um vestido vermelho, decotado, que eu mesmo dera pra ela no nosso aniversário de 5 anos de casamento. Como eu não havia percebido isso antes? Bem debaixo do meu nariz. Eu nunca devia ter saído daquele coquetel. Por mais bêbado que estivesse, era melhor eu ter vomitado em pleno salão do que ter deixado a minha esposa com aquele pária.
Cheguei no apartamento dele. Quando eu acabei de bater na campainha dele, meu celular toca. É a atenciosíssima recepcionista do hotel. Me avisou que minha mulher tinha acabado de chegar. Meu amigo não atendia a campainha. Será que ele tinha deixado ela no hotel? Esqueci de perguntar isso para a recepcionista no telefone. Detesto quando eu penso nas coisas tarde demais.
Apressado, entrei no hotel ignorando todos os "bom dia"s dos porteiros, a fila de carros importados que obstruía meu caminho e subi imediatamente ao meu quarto. Para minha surpresa, em cima da mesa, havia uma caixinha de presente e uma carta. A carta dizia:
Amor, feliz aniversário de 10 anos.
Aproveitei que não acordavas pra tentar buscar a surpresa e te entregar antes que eu tivesse de ir trabalhar. Dormias como uma pedra, mas pelo jeito já foi. A camareira deve chegar daqui a pouco com a fronha que mandei lavar. Cheguei ontem da festa e dormi, sujei o travesseiro todo de maquiagem.
Aproveita bem teu presente. É o Mazda preto. O Carlos ajudou a escolher.
Te Amo,
Sônia
Segundos depois, a camareira abre a porta e diz:
Olha só o que quase levei para lavar:
O celular da dona Sônia estava no meio das roupas sujas!
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